INVERNO – Açude Jangurussu passará por drenagem de emergência após denúncias de risco de rompimento


Reservatório também terá ações de limpeza e poda de vegetação.

Autoridades públicas em Fortaleza estão tomando providências emergenciais no Açude do Jangurussu, após denúncias da população sobre um suposto risco de rompimento da parede do reservatório. Moradores do bairro relataram alagamentos e pressão sobre a estrutura, o que levou órgãos de fiscalização e defesa social a iniciarem vistorias e intervenções no local.

O problema central, segundo líderes comunitários, reside na construção de um condomínio residencial de grande porte no entorno do açude. Segundo as análises preliminares de técnicos, o empreendimento estaria obstruindo o escoamento natural das águas da chuva.

Esse bloqueio teria gerado um represamento inadequado, aumentando a pressão sobre a parede da barragem, que tem mais de 100 anos, e provocando o empoçamento de água que ameaçaria as casas vizinhas.

Além disso, o aterramento realizado para a obra teria criado um gargalo na drenagem da região, desviando o curso das águas pluviais para propriedades particulares e áreas mais baixas do Jangurussu, como a Travessa Paraisópolis.

Para mitigar os riscos, a Defesa Civil de Fortaleza informou ao Diário do Nordeste que iniciou, na última quarta-feira (6), a limpeza do espelho d’água do açude com apoio da Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza (UrbFor).

O plano inclui a identificação de intervenções necessárias na parede, como poda e supressão de vegetação, além da capina do entorno – esta última prevista para começar até o dia 15 de maio, Coordenadoria Especial de Apoio à Governança das Regionais (Cegor).

Paralelamente, diz a DCFor, a construtora responsável obteve um alvará municipal para realizar obras de drenagem de emergência, que devem durar cerca de 60 dias, visando a restaurar o correto fluxo hídrico no local.

 

Vista de um terreno baldio com uma grande poça de água barrenta e vegetação densa ao redor. Ao fundo, observa-se um conjunto habitacional sob um céu ensolarado com nuvens, evidenciando o risco de proliferação de doenças em áreas urbanas.
Legenda: Moradores denunciam represamento de água da chuva em área que, antes de construção de condomínio, era seca.
Foto: Ismael Soares.

 

Vistoria técnica e riscos estruturais

Em uma vistoria técnica realizada no dia 13 de março, que contou com a presença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Defesa Civil e da Secretaria Executiva Regional 9, a situação foi classificada como “perigosa” por interlocutores ouvidos pela reportagem.

Durante a visita, observou-se que a parede do açude apresentava sinais visíveis de desgaste, com áreas de erosão e raízes de árvores expostas, o que poderia comprometer a estabilidade do solo.

 

Além disso, técnicos apontaram que o uso da parede para a travessia de pedestres e motocicletas aumentava a carga sobre a estrutura já fragilizada.

Como encaminhamento, segundo a DCFor, a Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) está elaborando um relatório técnico detalhado para definir as responsabilidades e medidas definitivas.

 

Agentes da Defesa Civil de Fortaleza com coletes laranja caminham por uma trilha de terra ao lado de uma poça de água parada. Uma mulher à esquerda aponta para a vegetação, indicando possíveis focos de mosquitos em uma área rural ou periférica.
Legenda: Agentes da Defesa Civil de Fortaleza vistoriaram o açude em março deste ano.
Foto: Ismael Soares.

 

Após a conclusão das obras de drenagem pela construtora, a Defesa Civil e a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) realizarão novas inspeções de segurança para verificar se o reservatório recuperou suas condições de estabilidade.

Em nota, a construtora Tenda confirmou que as intervenções previstas para a região terão início em 15 de maio, em alinhamento com os órgãos públicos envolvidos e com as autorizações necessárias já emitidas.

A empresa informou ainda que “realizou estudos técnicos da área desde o início do empreendimento, em linhas com os padrões de boas práticas da empresa”, e desenvolveu um projeto complementar de drenagem, discutido com os órgãos responsáveis, para melhorar o escoamento hídrico local e para a redução do acúmulo de água na região.

“A empresa reforça que o empreendimento segue regularmente licenciado e permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos”, concluiu.

 

Margem do açude Jangurussu com solo de terra batida e vegetação aquática acumulada entre as raízes de uma árvore inclinada. A água parada junto à margem e às plantas cria um ambiente propício para a reprodução de insetos transmissores.
Legenda: Trechos do açude apresentam erosão do solo evidenciada pela exposição de raízes de árvores.
Foto: Ismael Soares.

 

Estado colabora com análises

O Açude Jangurussu foi construído pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), em 1922. A reportagem questionou se a entidade está colaborando com as discussões e qual é a periodicidade da manutenção da barragem, mas não recebeu retorno.

Já a Cogerh, que integra a rede estadual de segurança hídrica, informou que já elaborou um relatório técnico sobre a situação das estruturas do açude e o enviou ao próprio Dnocs, “para subsidiar as medidas cabíveis junto aos órgãos e equipes responsáveis pelas intervenções na área”.

A Companhia ressaltou que está disponível para prestar apoio técnico à Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará (SRH), órgão fiscalizador de barragens, e à Defesa Civil de Fortaleza, por meio de novas vistorias no reservatório.

Água imprópria para consumo

Embora a crise tenha se agravado recentemente, o problema é antigo, e a população do Jangurussu convive com o medo de um rompimento da barragem há pelo menos 40 anos.

Registros históricos mostram que, desde a década de 1980, moradores enfrentam episódios de insegurança estrutural e inundações causadas por chuvas intensas que forçam a parede do açude.

Atualmente, além do risco de colapso, a água do açude é considerada totalmente imprópria para o consumo humano. Se em décadas anteriores o reservatório servia para banho, pesca e lavagem de roupas, hoje a poluição severa provocada por ligações clandestinas de esgoto tornou o recurso hídrico um risco à saúde pública.

Asa Branca News via DN

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