EDUCAÇÃO – 1ª escola quilombola integral do Ceará tem 9h de aula, valorização negra e pesquisa no território


A Escola Quilombola Antônia Ramalho da Silva fica na comunidade quilombola de Alto Alegre, em Horizonte, Região Metropolitana de Fortaleza.

Quando era criança, o acesso à escola praticamente não existiu. “Sobrou” para Rosimar Agostinho Ramalho, quilombola da comunidade de Alto Alegre, em Queimadas, distrito de HorizonteRegião Metropolitana de Fortaleza, “o cabo da inchada”. Chegou à vida adulta sem saber ler e escrever. Só aprendeu a fazer conta, quando já era idosa. Mas sonhou que com os filhos e netos seria diferente.

Hoje, aos 74 anos, vê a realidade mudar em seu território: mais de 200 adolescentes estudam em uma escola quilombola de tempo integral dentro do próprio território, sendo a primeira do modelo no Ceará a aderir à jornada ampliada.

O prédio da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva foi entregue em agosto de 2025, mas a unidade já existia. O Diário do Nordeste visitou a unidade, na última sexta-feira (8), junto a uma comitiva de técnicos e jornalistas de diversos estados do país. A visita foi promovida pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc) em parceria com o Instituto Natura e o Instituto Sonho Grande.

As discussões formais sobre a necessidade de estruturar uma escola desse modelo no território que é reconhecido pela Fundação Cultural Palmares, começaram em 2016, relata o diretor da unidade, Gustavo Santos. No Brasil a Fundação, vinculada ao Ministério da Cultura, é responsável por identificar formalmente, certificar e acompanhar comunidades quilombolas. 

No início, a escola tinha cerca de 70 alunos, que se reuniam de modo informal embaixo de um cajueiro no próprio território, cuja origem está ligada à trajetória de Cazuza Ferreira da Silva, conhecido como Negro Cazuza, um africano escravizado que, segundo as narrativas quilombolas, fugiu de um navio negreiro ancorado no Rio Ceará, em Fortaleza, no fim do século XIX.

 

Após a fuga, ele se estabeleceu na localidade de Alto Alegre, onde seus descendentes deram início ao povoamento da área rural que hoje abriga a comunidade.

 

No processo de estabelecimento da escola, ela foi  ganhando forma com ajuda da própria comunidade até ser incorporada em 2022 à rede pública estadual do Ceará, sendo a segunda escola quilombola vinculada à Seduc. A outra unidade do tipo fica em Croatá. Hoje, a EEMTI Quilombola Antônia Ramalho da Silva tem 270 alunos matriculados no ensino médio e na Educação de Jovens e Alunos (EJA).

imagem de alunos caminhando nos corredores da escola
Legenda: Alunos na área interna da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

Primeira escola integral entre as quilombolas

No Quilombo do Alto Alegre, território formado por famílias remanescentes quilombolas e marcado pela resistência histórica à escravidão, a escola também se destaca pelo pioneirismo: foi a primeira desse modelo a aderir ao tempo integral no Ceará.

No local, os estudantes do 1º e 2º ano permanecem diariamente das 7h às 16h40, em uma rotina com 9 aulas de 50 minutos cada que combina o ensino de disciplinas já conhecidas como português, matemática, física, biologia, história, e com atividades voltadas à valorização da cultura, da identidade negra e das tradições quilombolas.

 

imagem de pessoas caminhando dentro de uma escola
Legenda: Grupo cultural da comunidade quilombola na área interna da escola
Foto: Fabiane de Paula

 

Como a escola entrou em tempo integral em 2024, e o processo de inserção nesse novo formato é gradual, os estudantes do 3º ano não têm a jornada estendida. Somente em 2027 isso ocorrerá. Na unidade, segundo dados da direção escolar, dos 234 alunos matriculados no ensino médio, 183 se autodeclaram negros,  sendo 156 pardos e 27 pretos. Os demais estudantes se identificam como brancos.

A estrutura da instituição tem:

  • Quatro salas de aula;
  • Quatro laboratórios de Ciências;
  • Um laboratório de Informática;
  • Biblioteca;
  • Quadra poliesportiva coberta;
  • Jardins;
  • Cozinha e refeitório;
  • Depósito;
  • Vestiários;
  • Auditório;
  • Bloco administrativo:
  • Estacionamento.

Um espaço sonhado e demandado durante muitos anos pela própria comunidade, já que antes da estruturação, os jovens quilombolas que chegavam ao ensino médio precisavam sair da comunidade rumo às escolas na sede do município.

Legenda: Refeitório da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

Escola nasceu da demanda da própria comunidade

É a existência dessa escola que faz a liderança quilombola Rosimar Agostinho Ramalho hoje celebrar as mudanças no próprio território fruto das lutas e mobilizações.

“Aproveitem, estudem. Vocês têm o que eu não tive na minha vida. Quem tem suas crianças e seus jovens para colocar aqui (na escola), aproveite. Porque a coisa mais importante do mundo é o estudo”, afirmou para a comunidade escolar na última sexta-feira (8), quando a unidade recebeu a visita da comitiva.

A quilombola Rosimar Agostinho estava na escola pois a unidade realizou, naquela data, uma espécie de feira de partilha de saberes. Dentre outros temas apresentados por alunos das diversas séries, foram destacadas pesquisas de iniciação científica sobre os sujeitos da própria comunidade, as crenças e as lutas.

 

Imagem de uma mulher negra idosa sorrindo
Legenda: Rosimar Agostinho Ramalho, quilombola da comunidade de Alto Alegre, na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

O diretor da unidade, Gustavo Santos, explicou que o projeto da escola ganhou força ao longo dos anos com apoio da comunidade, da Prefeitura de Horizonte e do Governo do Estado, e teve as atividades iniciadas, em 2022, em um espaço cedido pela Associação dos Remanescentes do Quilombo do Alto Alegre, com duas turmas e cerca de 70 estudantes.

Depois, a escola passou a dividir espaço com uma unidade municipal quilombola, onde os alunos estudaram em salas-contêineres enquanto novas estruturas eram construídas. A sede própria foi inaugurada em agosto de 2025.

 

A mudança do modelo regular para o tempo integral ocorreu dentro da política estadual que busca universalizar a jornada ampliada nas escolas da rede neste ano.

 

Conforme já publicado pelo Diário do Nordeste, a proposta, uma das promessas do governador Elmano de Freitas, inicialmente não incluía alguns modelos de ensino diferenciados, como escolas indígenas e quilombolas.

No caso das quilombolas, porém, a unidade de Horizonte decidiu aderir ao modelo após ser procurada pela Seduc e ouvir a comunidade escolar.

 

“Então, viemos para para um momento de escuta em 2024, com pais dos nossos alunos, nossos estudantes, lideranças, convocando toda a comunidade escolar para ouvir. Então, fizemos uma primeira proposta de tempo integral, que era basicamente a mesma estrutura que as outras escolas têm com uma pequena mudança de início, a criação da disciplina História e Cultura Afro-brasileira, isso em 2025, quando a gente tinha só o primeiro ano em tempo integral. Mas não paramos por aí, continuamos ouvindo a comunidade e sentimos a necessidade de ter um currículo ainda mais próximo da nossa realidade”.
Gustavo Santos

Diretor da Escola

 

 

Legenda: Diretor da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva, Gustavo Santos.
Foto: Fabiane de Paula

 

Pesquisa no território

Foi então criado o Tempo de Pesquisa no Território Quilombola, chamado carinhosamente de “Tempo Quilombo”, uma espécie de atividade que une iniciação científica e extensão.

Nessa iniciativa os alunos realizam pesquisas no território quilombola, investigando histórias, lutas, memórias e resistências da comunidade. Então, todas as segundas-feiras, no contraturno, ao invés de cumprirem a jornada estendida na escola, eles vão para as próprias comunidades e realizam trabalhos de campo.

 

Legenda: Apresentação de capoeira na quadra da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

Segundo Gustavo, os resultados têm superado as expectativas da equipe pedagógica. A proposta inicial previa uma culminância anual dos trabalhos, com uma feira de partilha de conhecimento e apresentação de trabalhos, mas o envolvimento dos estudantes levou a escola a organizar esse evento a cada bimestre.

Ele também ressaltou a importância da formação antirracista dos professores e celebrou o retorno de alunos da EJA, muitos com mais de 40 anos, aos estudos. “Hoje eles voltam a acreditar que podem chegar à universidade”, afirmou.

 

“O primeiro e segundo ano, nesse momento (Tempo Quilombo), estão em pesquisa e os professores estão em formação dentro da escola. Todos os professores em uma formação antirracista, que a gente possa aprimorar nossos conhecimentos porque fazer a educação para as relações etnic-racial, fazer a educação escolar quilombola não é fácil, não é simples, precisamos de tempo para formação também porque nossa formação ela é eurocêntrica, ela é branca”.
Gustavo Santos

Diretor da Escola

 

Como é a experiência do tempo integral?

Aos 16 anos, Ana Vitória de Souza da Silva, filha e neta de quilombolas e moradora de Alto Alegre, é uma das alunas da Escola Quilombola em Horizonte e têm experimentado as mudanças. Aluna do 2º ano, ela lembra que, antes da sede própria, as aulas aconteciam em espaços improvisados e apertados. “Era tudo muito junto e longe. Às vezes a gente perdia aula por causa do ônibus”, recorda.

Uma das experiências que mais marcaram a estudante neste ano, relata foi a participação no Tempo Quilombo. Nessa iniciativa os alunos “vão a campo” e realizam pesquisas dentro da própria comunidade. O grupo da estudante pesquisou as matriarcas do território e descobriu histórias e laços familiares que muitos estudantes desconheciam.

 

Legenda: Alunos da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva apresentando trabalho
Foto: Fabiane de Paula

 

“A gente pensava que era só uma liberaçãozinha, que era folga na segunda. Quando ele (professor) disse que ia ser um projeto que ia valer muito a pena, a gente foi vendo e se aprofundando. Demos o máximo para entrevistar todas as matriarcas, e pensamos bastante em levar esse projeto para frente e quer que isso continue de geração em geração”, afirma.

A estudante diz que cresceu ouvindo a família falar sobre as próprias origens e hoje vê a escola como um espaço de fortalecimento da identidade negra. Segundo ela, o ambiente faz os estudantes acreditarem mais em si mesmos e valorizarem a própria cultura. “Tem gente que nem é quilombola, mas se sente parte daqui porque a escola faz a pessoa se sentir dentro da cultura e da identidade do quilombo”, destaca.

 

Legenda: Egressa e aluno da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

Para as estudantes também do 2º ano, Maria Eduarda Lima e Luciane Ferreira da Silva, a jornada ampliada ainda exige adaptação, já que no ensino fundamental elas só estudaram integral no 9° ano. Ambas destacam que o ritmo é “cansativo”, mas a convivência e as novas experiências na escola recompensam.

A dupla, em 2026, também começou a participar das pesquisas realizadas dentro da comunidade quilombola. Elas investigaram a temática das tranças a partir da história de uma moradora da comunidade e apresentaram na feira para outras turmas em um momento de partilha organizados pela escola. Sobre o futuro, Maria Eduarda destaca que cursar História e se tornar professora, já Luciane sonha em ser advogada.

Incentivo ao tempo integral

Na visita à escola, uma das técnicas era a gerente de Políticas Públicas para o Ensino Médio no Instituto Natura, Iara Viana. A entidade tem parceria com a Seduc e atua no fortalecimento do Ensino Médio Integral (EMI) em mais de 20 estados brasileiros.

Segundo Iara Viana, o Ceará é hoje um dos estados mais consolidados na política de educação integral, com maturidade metodológica, autonomia curricular e uso estratégico dos recursos. Ela afirma que o estado já consegue conduzir a política de forma independente, recebendo do Instituto Natura apenas apoios pontuais, principalmente em ações de formação continuada.

 

alunos andando em grupo no corredor de uma escola
Legenda: Alunos nos corredores da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula

 

Ela também ressalta que a diversidade precisa estar no centro das políticas de educação integral e as características culturais, sociais e territoriais precisam ser respeitadas. “

“Uma escola quilombola precisa respeitar as premissas das diretrizes nacionais quilombolas. Nesse sentido, essa escola instituída neste território precisa seguir aqueles preceitos e nós fazermos as adaptações estratégicas para dentro desse modelo para que ele funcione bem e entregue melhores resultados. O mesmo vale para as escolas indígenas, com a língua materna, com tempos e espaços diferentes”.
Iara Viana

Gerente de Políticas Públicas para o Ensino Médio no Instituto Natura

 

Iara também pondera que uma escola quilombola pode alcançar excelentes resultados mesmo sem seguir rigidamente todas as etapas do modelo tradicional, desde que, aponta, mantenha os princípios centrais da educação integral alinhados às características da comunidade.

Veja mais imagens

 

Legenda: Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Apresentação de trabalhos na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Alunas da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Corredor da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Aluna da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Alunas apresentando trabalho na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Legenda: Apresentação na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva
Foto: Fabiane de Paula
Asa Branca News via DN

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