Somos desavisados da morte. Pouco sabemos lidar quando ela chega – e ela sempre chega. Então, quando sete jovens desaparecem da convivência de uma cidade vítimas de uma tragédia nada anunciada, o que se percebe são contrastes: dor de um lado, abraço de outro; lágrima e desconsolo, mas generosidade em igual medida. É a dinâmica do luto coletivo. Tudo se multiplica se o recanto da emoção é ocupado no plural.
Antes mesmo de a equipe do Diário do Nordeste chegar a Juazeiro do Norte, já dava para sentir as costas pesadas do município. Os mortos do acidente ocorrido em Tauá há sete dias, na madrugada da última segunda-feira (15), – segundo o Ministério da Saúde, o que mais ceifou ocupantes de ônibus no Ceará em 12 anos – eram todos moradores do lugar. Envelheciam naquelas ruas, estudavam ali, respiravam aquele ar. Não à toa, a fila para despedida no Ginásio Poliesportivo da cidade, onde foram velados os corpos: havia necessidade de honrar quem conheceram.
Eles eram amigos próximos, os jovens, amigos de amigos, primos, irmãos. Filhos. E, mesmo que não fossem, a triste linha da melancolia da perda conectou-os ao sentimento público de pertencimento. Poderiam ser os amigos próximos, amigos de amigos, primos, irmãos e filhos de qualquer uma das cinco mil pessoas ali presentes no ato final de adeus. Provas da comoção generalizada estavam em toda parte, e emocionaram porque dotadas de muita ternura.
Bastava atravessar os portões de entrada do ginásio, por exemplo, para um amplo mural convidar o sentimento à escrita. “Para sempre em nossa história – Um espaço para registrar carinho, homenagens e lembranças”, era como o cantinho se anunciava. E assim era. Mensagens cravadas à caneta, a lápis ou com olhos de lágrima formavam um tocante bordado de delicadezas – esta, por sinal, palavra cara em horas tão difíceis.
Foi delicado ver cenas das vítimas em ação no basquete, e também em momentos de descontração entre partidas, projetadas em uma das paredes do ginásio. Mesmo para quem não os conhecia, a sensação era de vida vivida com alegria, entrega e disposição.

Foi delicado ver turmas e turmas de mãos e braços dados, por vezes dividindo apenas silêncio, naquele que parecia o ponto mais triste das próprias trajetórias. Foi delicado encontrar o coração aberto de quem, mesmo quebrantado, se dispunha a falar com nossa equipe de reportagem.
Pétalas lançadas sobre os caixões antes do cortejo do sepultamento, e o próprio coro de vozes entoando “Amigos para sempre” no caminho até o cemitério, desenharam outra geografia de Juazeiro do Norte. Uma mais pura, sentimental e, por que não, diferente: a da cidade que se curva ao afeto em todos os sentidos para aplacar a aflição da partida.
Os dias depois do adeus
A calmaria do dia posterior aos acontecimentos seguiu os passos de toda separação definitiva. Instalou-se nos lares, praças e escolas. Nestas últimas, foi possível constatar algo importante: em episódios dolorosos assim, os espaços tornam-se outros espaços. Casa vira rua, ginásio vira comunidade. Escola, por si só acolhimento, multiplica a razão de existir.

Em uma delas – a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Dom Antônio Campelo de Aragão, conhecida como CAIC – a diretoria fez questão de enfatizar que o retorno às aulas priorizaria escuta e abraço, tanto de estudantes quanto de professores. Assim aconteceu já no primeiro ato em respeito e homenagem às vítimas, na quarta-feira (17).
Oração, música, mural com fotos e declarações em voz alta incentivaram a liberdade de sentir: ninguém economizou no “eu te amo”, no “sinto sua falta”, no “gosto de você”. Talvez porque, a partir de agora, expressões feito essa passem a gostar de ocupar os dias. A morte não precisa acontecer para germinar carinhos; mas, quando assim ela ocorre, é consolador saber que os novos capítulos serão escritos com tinta de benquerença e afeição.

Duas escolas ainda não retornaram ao expediente, as que contavam com a maior parte das vítimas no quadro de alunos – a E.E.M. Governador Adauto Bezerra e a E.E.M.T.I. Presidente Geisel Polivalente. A proposta é que voltem gradualmente nesta semana que começa, mediante cuidados psicológicos intensificados com todo o corpo docente e discente. São formas possíveis de lidar, maneiras de concretizar o impalpável.
Outro passo para depois do adeus: saber que despedida nunca acontece de uma vez, e vai. Fica nos cantos, gritando em silêncio.
O Cariri de quem sente
Na despedida da equipe à cidade – olhos da estátua de Padre Cícero em direção ao carro – havia energia de recomeço. A vida precisa encontrar meios para a saudade. A partir de agora, cabe a cada um, gente de perto e de longe, dignificar a presença e a memória de quem foi mas permanece. Fazer do Cariri enlutado um Cariri que celebra histórias de quem marca.

Nunca esquecer o que passou, não – cada rosto, tom de voz, conquista e passo, cada sonho realizado e também os interrompidos. Mas, sobretudo, saber que a esperança é antídoto da tristeza. E que certas ausências, embora fiquem, potencializam outros encontros – às vezes conosco mesmos. Ou com um time, uma turma, uma cidade. Toda uma região.
Asa Branca News via DN





