POLÍTICA – Lula visita o Ceará em meio à crise no PT para definir candidaturas em 2026


Presidente cumpre agenda oficial no Estado enquanto aliados enfrentam disputas internas por vagas ao Senado e indefinições sobre chapa majoritária.

Em sua 11ª visita ao Ceará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca no Estado em meio a um cenário de tensão interna no Partido dos Trabalhadores sobre a definição das candidaturas para as eleições de 2026.

Embora a agenda oficial inclua compromissos administrativos — como visitas ao novo campus do ITA e a cerimônia que celebra os 2 anos do Programa Pé-de-Meia —, o plano de fundo político expõe um PT pressionado internamente e por aliados.

A seis meses do pleito eleitoral, o presidente tem sua candidatura à reeleição tratada como consenso no plano nacional. No entanto, no Ceará, o partido enfrenta dificuldades para organizar a própria estratégia, especialmente na disputa pelo Senado e na montagem das chapas proporcionais.

Disputa por chapas amplia tensão interna

No caso das articulações para a disputa das cadeiras na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) e da Câmara dos Deputados, algumas alas da legenda no Estado têm enfrentado atritos internos, inclusive com recados públicos de algumas lideranças.

O principal impasse gira em torno da possibilidade da entrada de novos nomes na agremiação na janela partidária — que encerra na próxima sexta-feira (3). Alguns integrantes da sigla veem com cautela esses reforços com pouca identificação histórica com a agenda petista.

Na semana passada, o líder do Governo Lula na Câmara, o deputado federal José Guimarães, adotou um tom duro ao tratar do tema e rechaçou a ideia de que o PT possa absorver candidaturas que prejudiquem quadros históricos da legenda.

“O PT não é barriga de aluguel de ninguém. O dono do PT é nossa aguerrida militância espalhada pelo país inteiro. Nossas chapas de deputados federais e estaduais, anunciaremos na próxima semana. Não vamos aceitar ninguém no PT que prejudique nossos parlamentares que ao longo dos anos se dedicaram à construção do PT e na defesa sem vacilação do governo do presidente. Não houve nenhum acordo com nossa direção para trazer ninguém para o PT”, declarou em publicação nas redes sociais.

 

 

No mesmo sentido, o deputado estadual De Assis Diniz (PT) reforçou que a montagem das candidaturas será conduzida exclusivamente pela direção partidária. “Quem monta a chapa do PT é o PT. Não vamos permitir que quem não é do partido venha definir o que o PT pensa”, disse.

Nos bastidores, a disputa envolve também o cálculo eleitoral. Parlamentares temem perda de espaço diante do coeficiente eleitoral, o que pode afetar especialmente nomes como as deputadas estaduais Larissa Gaspar e Juliana Lucena, que vêm sendo cotadas em outras siglas.

Ao mesmo tempo, há movimentações dentro da federação partidária. O deputado João Jaime já se filiou ao PV, que integra a federação com o PT. Nessa equação, um dos pontos mais delicados envolve a atração desses novos nomes e ainda evitar conflitos entre partidos aliados, como PSB, Republicanos, PSD e MDB, que também buscam ampliar suas bancadas.

A avaliação é reforçada por lideranças petistas no Estado. O líder da legenda na Alece, Missias Dias, afirma que o momento é de ajuste fino entre aliados para evitar disputas diretas nos territórios.

“Há conflitos de nomes em algumas regiões, principalmente entre candidaturas da federação e do PSB (…) A gente está dialogando para diminuir arestas e buscar a melhor compreensão para fortalecer as bancadas, sem criar confrontos”, disse.

Segundo ele, o esforço envolve não apenas o PT, mas toda a base governista, que tenta equilibrar o crescimento das bancadas com a manutenção da unidade política.

“Cada partido tem o objetivo de eleger mais deputados (…) Mas sem criar conflitos, confrontos com ninguém, respeitando os aliados”, acrescentou.

De olho no Senado

No Ceará, ao menos dois nomes do PT disputam espaço: o líder do Governo na Câmara, José Guimarães, e a deputada federal Luizianne Lins.

Guimarães mantém uma intensa agenda de articulações e sustenta que não abrirá mão da candidatura. Ele contabiliza o apoio de mais de 70 prefeitos e tem defendido que sua trajetória o credencia para a disputa. “Lealdade ao projeto do presidente Lula, compromisso real com as demandas cearenses e capacidade de promover renovação ativa”, disse ao PontoPoder.

Apesar disso, a eventual candidatura enfrenta resistências dentro da própria base aliada. O PT já ocupa espaços estratégicos no Estado — com o Governo do Ceará, a Prefeitura de Fortaleza e uma vaga no Senado —, o que tem gerado desconforto entre aliados.

Luizianne e a incerteza sobre o futuro partidário

Outro nome na disputa interna é o de Luizianne Lins, que vive um momento de isolamento político dentro do partido. Lançada como pré-candidata ao Senado em 2025 pelo Campo de Esquerda, a deputada mantém base eleitoral consolidada, sobretudo em Fortaleza, mas perdeu espaço nos últimos anos com a ascensão do grupo liderado pelo ministro Camilo Santana.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que o cenário pode levar a uma mudança de partido. Luizianne é cotada em siglas como Rede e Psol, e já mantém diálogo com lideranças dessas legendas. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, chegou a intervir para tentar conter o desgaste, mas o impasse segue sem solução.

A equação envolve ainda outros nomes fora do PT que disputam espaço na chapa governista, como o senador Cid Gomes (PSB), os deputados Eunício Oliveira (MDB) e Júnior Mano (PSB), além de Chagas Vieira, Chiquinho Feitosa (Republicanos) e Domingos Filho (PSD).

Cálculos eleitorais

Além das disputas políticas, um fator matemático também pesa na definição das chapas. Nas eleições de 2022, José Guimarães e Luizianne Lins tiveram votações muito próximas — 186.136 votos e 182.232 votos, respectivamente.

 

Esse desempenho conjunto representa uma fatia relevante do total de votos da legenda e influencia diretamente o cálculo do coeficiente eleitoral. Interlocutores petistas citam a preocupação de que uma eventual candidatura de Guimarães ao Senado ou uma saída de Luizianne do PT possa retirar esses votos da chapa proporcional, enfraquecendo o desempenho do partido na disputa por cadeiras na Câmara dos Deputados.

 

Camilo ou Elmano?

Outro ponto de tensão envolve a própria disputa pelo Governo do Ceará. Embora o governador Elmano de Freitas (PT) seja tratado como o candidato natural à reeleição, o nome de Camilo Santana voltou a circular como alternativa.

Publicamente, o ministro reforça apoio a Elmano, mas evita descartar completamente outros cenários. “A política é dinâmica”, disse recentemente. A declaração abriu espaço para especulações, alimentadas por aliados e adversários, especialmente com a união do grupo oposicionista em torno da pré-candidatura do ex-governador Ciro Gomes (PSDB).

O próprio Lula chegou a mencionar a possibilidade de Camilo ser candidato. “O Camilo não é candidato, mas vai se afastar para ficar de olho, na expectativa. Se precisar, ele é candidato e vai ajudar o Brasil, ajudar as coisas pelo Brasil”, declarou o chefe do Executivo Federal no último dia 25 de março.

Camilo, por sua vez, deixou o Ministério da Educação na última segunda-feira (30), cumprindo o prazo de desincompatibilização, o que o credencia a disputar o pleito deste ano. Contudo, ele reiterou que a decisão foi para se dedicar às campanhas de aliados, incluindo a reeleição de Elmano e do próprio Lula.

 

 

 

Asa Branca News via DN


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