A Copa do Mundo de 2026 movimentou o público apaixonado por futebol e, em apenas 39 dias, brasileiros gastaram quase R$ 1 bilhão em apostas esportivas online. Mas, afinal, o que leva tantas pessoas a arriscarem o próprio dinheiro em jogos com alta possibilidade de perdas financeiras?
Segundo o Raio X do Brasil, pesquisa desenvolvida pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, o gasto médio mensal dos apostadores em 2025 era de R$195,15.
Durante a Copa, a Klavi Open Finance apurou que foram apostados, em média, R$177 por pessoa. Apenas no dia 19 de julho, na grande final da competição, foram depositados R$14,8 milhões de reais em bets on-line em todo o Brasil.
inda de acordo com o Raio X do Brasil, 32% dos apostadores alegam buscar a atividade por diversão, e 27%, pela emoção do jogo. Em 2024, apenas 26% consideravam as apostas algo recreativo.
Relembre casos
Um dos casos mais recentes envolvendo bets é o do cantor cearense Victor Custódio Gomes, conhecido como Vittim. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele contou que sofre com o vício em apostas há cinco anos, período no qual chegou a perder cerca de R$ 800 mil — quantia que inclui o valor obtido com a venda de equipamentos musicais que o artista possuía.
Victor tem 23 anos e mora em Ipu, cidade no interior do estado. Quando começou a jogar, ele ia até pontos de apostas físicos, conhecidos como casas esportivas, mas, com o tempo, passou a utilizar as plataformas on-line.
Outro caso que ficou bastante conhecido no Brasil foi o do jovem Rafael Borges de Amaral, em Uberlândia (MG). Segundo a mãe de Rafael, o filho acordava às cinco da manhã para trabalhar, mas as noites de descanso acabaram substituídas por horas diante do celular, apostando.
Ao contrário de Victor, Rafael não conseguiu sair do mundo das apostas. No dia 23 de março de 2024, aos 26 anos, ele faleceu. O boletim de ocorrência registrou a morte como suicídio, e a mãe do jovem relaciona o ocorrido diretamente à dependência em apostas.
O que leva tantas pessoas a apostar?
Com o intuito de entender os motivos que levam tantas pessoas a apostar em jogos de azar, a reportagem conversou com a psiquiatra, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luísa Weber Bisol, e com a economista e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Isadora Osterno.
Para Isadora, as bets já vêm com a “ilusão de uma renda rápida”, com propagandas mostrando que, com centavos, o apostador consegue multiplicar o valor apostado.
“As bets chegam por meio de um joguinho, por meio de algo inofensivo, e isso faz com que essa gamificação esconda o verdadeiro perigo”, completa.
A motivação pela qual as pessoas jogam e continuam pode ser explicada por uma combinação de fatores psicológicos e biológicos. Luísa conta que o problema central reside na ativação de estruturas cerebrais específicas responsáveis pelo prazer.
Segundo a professora, o funcionamento das apostas ocorre da seguinte forma: desde o primeiro contato com as apostas, é gerada uma grande sensação de prazer, provocando inclusive alterações cerebrais, chamadas pela especialista de “circuito de recompensa”.
Essa estrutura está diretamente ligada a uma parte do cérebro que desempenha papel central no prazer, na aprendizagem e nos vícios. Em seguida, o sistema neurológico tem liberação de dopamina, neurotransmissor responsável no sistema de recompensa e motivação.
“Quando se tem grandes liberações, impulsos de dopamina, o corpo recebe sensações muito grandes de prazer”, explica a psiquiatra.
As liberações de dopamina são tão grandes que Luísa chega a comparar o vício em apostas com o vício em drogas pesadas, como crack e cocaína; mas, para além de fatores biológicos, o fácil acesso às plataformas removeu barreiras que antes faziam as pessoas refletirem no caminho até as loterias, por exemplo.
Apesar de atrair milhões de brasileiros com a promessa de renda rápida, o mercado de apostas impõe um custo alto à economia e à saúde mental. Para a economista Isadora Osterno, encarar as bets como investimento é uma armadilha perigosa.
“Trabalhei muito com estatística e sei que todas as possibilidades são contra o apostador. A longo prazo, o valor esperado é sempre de perda — é assim que a casa ganha. Cabe às instituições reguladoras atuarem com urgência para educar a população e mostrar o real perigo dessas plataformas antes que o problema financeiro vire uma tragédia”, conclui a economista.
De acordo com um dossiê do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), estima-se que os danos associados às apostas e jogos de azar, no Brasil, gerem um custo anual de R$ 38,8 bilhões — dos quais R$ 17 bilhões são decorrentes de mortes por suicídio.
O estudo considera que “pessoas com uso problemático de apostas e jogos de azar sofrem maior incidência de depressão e suicídio, dentre outros eventos”. Apesar disso, dadas as evidências limitadas, não é possível afirmar que os danos foram causados diretamente pelo jogo problemático — por isso o uso do termo “associados”.
Assim, para além das perdas financeiras, as famílias tendem a perder, ao longo do ano, entes queridos para os jogos de azar.
Saiba como e onde encontrar ajuda especializada
Em Fortaleza e no restante do Brasil, existem plataformas e grupos de apoio que ajudam pessoas com vício em jogos. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza um questionário confidencial no qual o usuário pode descobrir se tem predisposição à ludopatia.
Na capital cearense, também é possível participar de encontros presenciais com pessoas que enfrentam o mesmo problema por meio do Jogadores Anônimos. Os encontros abertos são aos sábados, às 10h.
Os encontros em Fortaleza ocorrem em dois locais:
- Grupo Fortaleza reúne-se às segundas e quartas-feiras, das 19h30 às 21h30, no Centro (Rua São Paulo, 32, Sala 316).
- Grupo Iracema realiza reuniões às quintas-feiras, das 19h30 às 21h30, e aos sábados, das 10h às 12h, na Praia de Iracema (Av. Almirante Barroso, 949).
As informações e inscrições podem ser obtidas pelo telefone (85) 98929-5529.
Asa Branca News via Diário do Nordeste





