SAÚDE – Dormir mal pode prejudicar aprendizado e saúde mental das crianças; veja tempo de sono ideal


Crianças e adolescentes precisam de atenção à saúde do sono para evitar danos ao desenvolvimento.

Comuns em adultos, problemas como insônia, apneia obstrutiva do sono e outros distúrbios do sono também podem afetar a rotina e impactar a saúde física e mental de crianças e adolescentes. Muitas vezes subnotificados, esses transtornos podem apresentar sintomas diferentes a depender da faixa etária e exigir tratamentos específicos da medicina do sono.

O neurologista Manoel Alves Sobreira, especialista na área e coordenador do serviço do sono do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), destaca que o sono exerce uma função “importantíssima” no organismo de todas as pessoas, mas têm papel especial em crianças e adolescentes, que estão em formação.

“O primeiro ponto é que ele ajuda no processo cognitivo. Cognição é aquilo que está relacionado à memória, atenção, cálculo. Então, uma criança ou adolescente que dorme pouco ou dorme mal acaba tendo comprometimento na atenção e portanto fica mais desatento, mais inquieto. Isso acaba atrapalhando, eventualmente, o desempenho escolar”, destaca.

Outra questão importante diz respeito ao desenvolvimento físico dos mais jovens, que pode ser estimulado ou atrapalhado a depender da qualidade do sono. “O hormônio do crescimento é produzido prioritariamente durante o sono. Aquelas crianças que têm problemas de sono acabam tendo uma menor produção de hormônio de crescimento e podem, eventualmente, ter um atraso no desenvolvimento”, pontua.

O impacto da ausência de sono de qualidade tem repercussões diferentes em cada faixa etária. Na primeira infância, a principal parte afetada é a cognição, mas também é comum que a criança fique irritada, impaciente e mais agitada – o que pode confundir os pais, já que muitas vezes não há sonolência aparente.

Já na adolescência, a privação de sono pode, além de causar desatenção, afetar fortemente a saúde mental, piorando quadros já existentes de ansiedade ou agravando sintomas depressivos.

 

“Uma questão importante é que tanto os problemas mentais levam a alterações de sono como a alteração de sono crônica pode piorar os problemas mentais. É uma via bilateral”.
Manoel Alves Sobreira

Coordenador do serviço do sono do Hospital Universitário Walter Cantídio

 

Quais os principais distúrbios do sono em crianças?

Ao todo, existem mais de 80 doenças relacionadas ao sono. No entanto, há algumas que são mais comuns em crianças, como o transtorno de insônia crônica, que impede que a criança durma ou mantenha o sono pelo período adequado, e a apneia obstrutiva do sono, que ocasiona interrupções ou redução da respiração durante o sono.

Também são comuns as parassonias, caracterizadas por “movimentos complexos que acontecem durante o sono e ocorrem mais frequentemente no período da infância e adolescência”, segundo Manoel Alves Sobreira. Entre elas, a mais conhecida é o sonambulismo.

Qual o tempo de sono ideal para cada faixa etária?

Legenda: Bebês recém-nascidos, os que precisam de mais tempo de sono, podem dormir até 19 horas por dia.
Foto: Fabiane de Paula.

 

Para a psicóloga e pesquisadora Emmanuelle Sobreira, a principal dica para ajudar crianças e adolescentes a terem uma relação saudável com o sono consiste na manutenção de uma rotina adequada para as necessidades dos pequenos, com o intuito de obedecer à necessidade biológica de sono em cada etapa da vida.

“A rotina da criança não dá para ser igual a de um adulto”, destaca a especialista. “O que normalmente a gente vê é que as famílias, os pais, têm uma rotina muito cheia e às vezes estendem o trabalho até um pouco mais tarde, e acaba que a criança ou adolescente acompanha o ritmo”.

tempo necessário de sono de crianças e adolescentes, no entanto, é bem maior que o de adultos: enquanto um adulto costuma precisar de 7 a 9 horas de sono por noite, geralmente, uma criança em idade pré-escolar precisa de, no mínimo, entre 10 e 13 horas por noite, segundo a National Sleep Foundation. Um adolescente também precisa de mais descanso: entre 8 e 10 horas, em média.

 

Ainda que a necessidade de sono possa variar para mais ou menos a depender do indivíduo, Emmanuelle destaca que o déficit de descanso pode impactar todas as faixas etárias de diferentes formas. No caso de um adolescente, que já vivencia um momento particularmente difícil emocionalmente, com muitas mudanças, o dano pode ser considerável:

“Impacta na atenção, na aprendizagem, nas emoções, na forma como ele maneja a emoção, como ele lida com as emoções no dia a dia”, pontua.

Fortaleza tem ambulatório para o sono de crianças e adolescentes

Legenda: Atendimento é feito às sextas-feiras, caso haja encaminhamento médico prévio.
Foto: Divulgação/HUWC.

 

Com o aumento da demanda por esse olhar especializado e focado no público de até 18 anos, o Hospital Universitário Walter Cantídio – localizado no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza – conta, desde agosto do ano passado, com um Ambulatório do Sono Infantil.

O ambulatório infantil é um dos quatro ambulatórios voltados para a medicina do sono no HUWC. Ao total, eles atendem de 40 a 50 pessoas por semana; desses pacientes, de 15% a 20% são crianças, segundo Manoel Alves Sobreira.

Como acessar os serviços do ambulatório?

Para chegar ao Ambulatório do Sono Infantil, serviço pioneiro no Ceará dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), é preciso, primeiro, passar por uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e ser encaminhado para o serviço. O paciente entra na regulação municipal e pode ser encaminhado ao HUWC.

Antes de chegar ao ambulatório, o paciente passa por um ambulatório de triagem e é atendido por médicos pediatras e otorrinolaringologistas. Depois, ele pode ser encaminhado ao serviço especializado para uma avaliação mais detalhada.

“Nem todo mundo que tem alguma queixa de sono necessariamente vai precisar do ambulatório especializado. Algumas coisas podem ser resolvidas, eventualmente, na atenção básica. Aqueles que têm uma maior necessidade vão para o serviço terciário, porque não cabe todo mundo”, explica Manoel.

Os atendimentos são feitos semanalmente, às sextas-feiras, no Hospital Universitário Walter Cantídio.

Dicas para uma rotina de sono mais saudável

Para ajudar a manter uma rotina de sono saudável, o neurologista Manoel Alves Sobreira sugere a adoção de hábitos que ajudam a evitar distúrbios do sono ou reduzir os impactos deles. Entre os principais estão:

  • Manter uma rotina diurna saudável para evitar prejuízos do sono à noite;
  • Praticar atividade física regularmente;
  • Evitar bebidas com substâncias estimulantes, como café, chá preto, chá mate e refrigerantes, especialmente próximo ao horário de dormir;
  • Evitar uso excessivo de telas e principalmente de redes sociais e jogos antes de dormir;
  • Criar um ambiente adequado para o sono da criança: silencioso, com luminosidade reduzida e temperatura confortável;
  • No caso de crianças pequenas, manter uma rotina diária antes de dormir para ajudar a criança a entender que aquele é o momento de descansar.
Asa Branca News via DN

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