A idosa de 62 anos resgatada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) em condições análogas à escravidão de um imóvel localizado dentro de um condomínio de luxo, na cidade de Eusébio, Grande Fortaleza, não está mais na casa dos empregadores.
A informação foi confirmada ao g1 pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Ainda segundo o órgão, a vítima não trabalha mais no local e teve sua rescisão concluída. O MPT não informou, no entanto, para onde ela foi. “O processo segue em tramitação e está sob sigilo”, acrescentou o órgão em nota.
A defesa da família empregadora disse, em nota, que a doméstica deixou a residência no dia 27 de julho. “Assim como vinha ocorrendo nos últimos anos, ela foi passar uma temporada na casa da irmã e de seus demais parentes no interior do Estado”. No momento, eles não possuem nenhum vínculo de trabalho ativo.
O caso se desenrolou a partir de uma denúncia anônima ao Disque 100, contato do Governo Federal para receber, analisar e encaminhar denúncias de violações de direitos humanos. De acordo com a auditoria, a mulher passou 55 anos sem receber salário. Ela chegou à casa da família ainda aos sete anos de idade e não estudou.
Após o resgate, a vítima chegou a ficar por um tempo na casa dos empregadores. Isso ocorreu porque os órgãos competentes entendiam que ela não tinha autonomia para morar sozinha. No entanto, o cenário mudou. O MPT informou ao g1 na manhã desta segunda-feira (17) que ela não está mais no condomínio do Eusébio.
A idosa continua sendo assistida pela Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará, onde recebe “atendimentos multidisciplinares frequentes com foco no incentivo à autonomia”.
“O acompanhamento seguirá de forma contínua, dando seguimento ao apoio psicossocial necessário no pós-resgate e à articulação com os órgãos competentes para acesso à rede de proteção e aos serviços públicos, a partir das demandas que venham a ser identificadas”, informou a pasta.
Maria Neuzeli, auditora fiscal do Trabalho responsável pela fiscalização do caso, disse que a vítima era responsável pelos cuidados cotidianos de duas crianças, de 11 e sete anos, além da preparação das refeições e da execução de todas as atividades domésticas essenciais ao funcionamento da residência.
O g1 também procurou o Ministério do Trabalho e Emprego para comentar o caso. Em nota, o órgão disse que a força-tarefa coordenada pelo MTE, por meio da Secretaria de Inspeção, resgatou uma trabalhadora doméstica de 62 anos submetida a condições análogas à escravidão após mais de cinco décadas de trabalho ininterrupto para o mesmo núcleo familiar, na capital Fortaleza.
“O relatório da inspeção fiscal aponta também que durante toda a trajetória, a trabalhadora permaneceu sem remuneração regular, sem autonomia financeira e sem acesso às oportunidades educacionais e patrimoniais desfrutadas pelos integrantes da família para a qual trabalhou durante praticamente toda a vida”, acrescentou o ministério.
“Enquanto os empregadores estudaram, se profissionalizaram, constituíram patrimônio e formaram suas próprias famílias, a trabalhadora permaneceu analfabeta e em situação de completa dependência econômica”, disse ainda o órgão.
A família empregadora reforçou também, por nota, que há um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em cumprimento. “A defesa reitera que a inexistência de qualquer situação análoga à escravidão será devidamente demonstrada e comprovada pelos meios próprios, no âmbito das instâncias competentes”, concluiu.
O g1 destaca alguns pontos dessa história para entender até onde ela avançou e os desafios daqui para frente.
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Momento antes do resgate da trabalhadora em condomínio de luxo na região metropolitana de Fortaleza — Foto: Divulgação
1. ‘Dada pela mãe’
Maria Neuzeli traçou a história da vítima após o primeiro contato com ela. Segundo a auditora, a mãe da doméstica trabalhou para a família até os 14 anos. Nesta idade, ela se casou e decidiu voltar à cidade de origem, em Padre Marcos, no Piauí.
Lá, a ex-empregada da família teve seis filhos. Ao saber da informação, depois de alguns anos, a matriarca da família empregadora, baseada na suposta extrema pobreza que a ex-funcionária vivia, decidiu ir até lá para buscá-la de volta. Nesta ida, a empregadora trouxe a ex-funcionária e duas filhas (sendo uma delas, a mulher que viria a ser resgatada em junho deste ano).





