A Justiça do Ceará ordenou a devolução de um veículo de luxo a uma mulher denunciada por envolvimento no ‘Jogo do Tigrinho’. A BMW X3 Sport, adquirida pela denunciada Ana Alice da Silva no valor de R$ 484 mil, foi um dos carros apreendidos quando a Polícia Civil do Ceará (PCCE) deflagrou a ‘Operação Quéfren’.
Passado pouco mais de um ano da operação que resultou na apreensão de diversos veículos e desarticulou grupo criminoso que divulgava jogos de azar e lavava dinheiro, o Judiciário foi a favor de deferir o pedido da defesa da acusada para reaver o bem.
Ana Alice e outras 15 pessoas foram denunciadas por supostamente formar uma “organização criminosa com larga atuação em supostas fraudes fazendo milhares de pessoas como vítimas, por serem influenciadores digitais e usarem de meios como redes sociais para aplicarem golpes financeiros por meio de jogos de azar supostamente manipulados”.
De acordo com a acusação, “foi relatado inclusive que o fluxo de dinheiro captado pela organização pode ser destinado à Organização Criminosa nacionalmente conhecida, o Comando Vermelho”.
LAVAGEM DE DINHEIRO
Segundo o Ministério Público do Ceará (MPCE), Ana Alice foi processada especificamente pela lavagem de capitais no contexto de investigações envolvendo organizações criminosas.
A defesa se posicionou nos autos pedindo a restituição do carro, afirmando que a acusação era frágil e que a instrução processual foi encerrada sem provas consistentes.
Enquanto a Polícia Civil do Ceará tentou autorização para usar o veículo a favor da instituição, o que foi indeferido temporariamente pela Justiça, o advogado da investigada solicitou ao Judiciário a devolução da BMW alegando que o bem apreendido vinha sendo deteriorado.
De acordo com a defesa, “a requerente constatou, por meio do sistema telemático de fábrica do veículo (aplicativo BMW ConnectedDrive) que, em 25 de novembro de 2025, o automóvel se encontrava geolocalizado na Rua Mateus Soares, nº 240, Parque do Carmo, São Paulo/SP, completamente fora de qualquer pátio ou depósito judicial no Ceará, destravado e com os vidros dianteiros abertos, evidenciando que o bem não está sob efetiva custódia estatal, mas sim em uso por terceiros desconhecidos”.
A defesa ponderou que não havia lastro probatório mínimo indicando que o bem constitui proveito do crime. O MP entendeu o contrário.
O órgão acusatório foi contra a devolução, apontando ser “inquestionável que a investigação em curso alega que a requerente utilizou-se de terceiros, incluindo figura materna, para adquirir veículos de elevado valor patrimonial, ocultando a verdadeira origem dos recursos”.
“O próprio veículo em questão foi adquirido por R$ 484.950,00, quantidade substancial que demanda análise probatória acerca da compatibilidade entre o patrimônio conhecido e declarado da investigada e sua capacidade aquisitiva. Nesse contexto, o bem não é mero objeto patrimonial de posse questionável; é elemento potencial de prova quanto à operacionalidade de esquema de lavagem de capitais. A manutenção da apreensão encontra-se, portanto, plenamente justificada no interesse da prova”.
O Ministério Público acreditou que a apreensão do bem não se tratava de uma pena antecipada. No entanto, os juízes da Vara de Delitos de Organizações Criminosas do TJCE entenderam que estão presentes os requisitos da restituição, impondo condições para a devolução.
O Judiciário determinou que a acusada não pode dispor, alienar ou onerar o bem até deliberação judicial, sendo obrigada a conservá-lo e apresentá-lo em juízo sempre que isso for determinado.
LIGAÇÃO SUSPEITA COM O CV
O grupo passou a ser investigado quando os policiais receberam uma denúncia anônima apontando que Luis Felipe Galvis Ramirez, a esposa dele, Brenna Samyra Barbosa Brito e o cunhado dela, Brenno Matheus Barbosa Brito estariam promovendo o ‘Jogo do Tigrinho’.
Conforme a investigação, o dinheiro do bando foi obtido de forma ilícita e usado para adquirir vários automóveis de luxo, como BMW, Corolla e Land Rover.
Galvis estaria “lavando dinheiro obtido por meio de agiotagem praticado por indivíduos oriundos da Colômbia que residem em Juazeiro do Norte”
O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) denunciou 16 nomes, “todos por suposta prática do crime de integrar organização criminosa armada e outros crimes graves”.
A acusação indicou a suspeita dos alvos da operação estarem financiando a facção carioca CV.
Os denunciados teriam falseado ganhos por meio do ‘Jogo do Tigrinho’ e levado consumidores a perdas de valores consideráveis, “em contrapartida, angariavam ganhos vultuosos em prejuízo dos usuários de tais plataformas, convertendo posteriormente estes ativos em ativos lícitos”.
“Segundo os investigados, os dirigentes das atividades seriam chineses, com quem os líderes mantinham contato para estruturar as atividades e negociar verdadeiros contratos para divulgação de jogos de azar. Contudo, tais agentes estrangeiros não foram identificados”, conforme o MP.
No decorrer do processo, foram deferidas medidas cautelares, como quebra de sigilo bancário e fiscal, quebras de sigilo telemático e interceptação de comunicações telefônicas.
Asa Branca News via Diário do Nordeste





