Em meio à janela partidária, a política cearense tem dado sinais mais claros de como serão as alianças que irão às urnas em outubro. Palco de idas e vindas desde a sua criação, em 2023, o PRD tem recebido novos filiados numa estratégia que indica a manutenção de poder, mesmo de maneira adjacente, de algumas das figuras de maior envergadura no Estado.
As adesões mais recentes são o vereador de Fortaleza, Gardel Rolim, e a prefeita de Nova Russas, Giordanna Mano. Em contrapartida, perdeu seu então presidente e também vereador da Capital, Michel Lins. Os movimentos repercutem. No primeiro caso, gera desfalque em um partido que já vive uma dramática debandada desde 2022, o PDT, e pode parar na Justiça.
No segundo, posiciona-se em uma base eleitoral estratégica para o governismo e sinaliza a intenção de lideranças como Acilon Gonçalves e Junior Mano de manterem influência em ao menos dois partidos.
Aliados desde os tempos de PL, ambos reforçaram as fileiras do PSB entre 2024 e 2025 com objetivos muito claros, que são, respectivamente: chegar à Câmara dos Deputados, após a construção de amplo currículo no Executivo e no Parlamento cearense; e se candidatar ao Senado.
Nessa esteira, devem trabalhar, ainda, para garantir a presença do PRD na bancada cearense em Brasília – Giordanna, esposa de Junior, é pré-candidata à Câmara.
O PRD já havia entrado no radar do grupo quando ainda era novidade na política nacional, e chegou a abrigar aliados de Acilon, como o seu filho e o seu sobrinho, prefeitos de Aquiraz (Bruno Gonçalves) e Eusébio (Dr. Júnior), respectivamente.
Também fez números nas eleições de 2024 nesse planejamento, mas a aproximação com o PSB esvaziou a legenda. A proximidade do pleito geral, contudo, motivou uma alteração nos caminhos trilhados até então.
PRD é estratégico
A legenda ainda é pequena nacionalmente. Na Câmara dos Deputados, são quatro representantes – três de Minas Gerais e um do Maranhão. Não à toa, o partido se federou ao Solidariedade (SD) no ano passado, a fim de garantir sobrevivência nas eleições de outubro. Assim, o bloco chegou a nove parlamentares e ganhou fôlego para tentar ampliar seus quadros no próximo mandato.
Por que, então, o PRD voltou ao jogo político no Ceará? O PontoPoder já discutiu a função estratégica de partidos pequenos nas eleições majoritárias. A capacidade de mobilização eleitoral em determinadas regiões e a capilaridade em eleitorados específicos, como o de Fortaleza, foram alguns pontos levantados por cientistas políticos e dirigentes partidários.
Apesar de a projeção ser pequena no Congresso Nacional, a sigla teve resultados importantes nas eleições de 2024 no Estado. O PRD conquistou cinco prefeituras naquele ano. Em Fortaleza, foram três assentos alcançados na Câmara Municipal.
O PRD teve mais votos que o União Brasil, o PSDB e o MDB na eleição passada. Então, qual é o partido pequeno, de fato? (…) Vamos para os resultados: são 109 mil votos de Fortaleza. Nós só perdemos para o PDT, que era o maior partido, o PL e o PSD.
Contudo, o partido foi esvaziado no interior e em municípios do entorno da Capital em 2025, com a migração desses gestores ao PSB, seguindo os ex-membros do PL.
Tudo isso ocorreu também sob a liderança do senador Cid Gomes, que, além dos cinco já citados, ajudou a eleger mais de 60 prefeitos para o PSB. A presença inflada da sigla socialista e de outras, como o PT, nos municípios minou o protagonismo que partidos menores buscavam construir.
O cenário voltou a ser favorável ao PRD neste mês de março, quando a prefeita de Nova Russas e esposa do deputado, Giordanna Mano, resolveu fazer o caminho inverso, indicando que novas filiações devem ocorrer nas próximas semanas.
Em Fortaleza, a bancada do PRD deve contar com ao menos quatro vereadores até 3 de abril, com a adesão de Carla Ibiapina (DC).
O nascimento do PRD
O PRD surgiu oficialmente em novembro de 2023, resultado da fusão entre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Patriota. A criação da nova legenda foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após o cumprimento de todos os trâmites burocráticos.
A principal motivação para a fusão foi a cláusula de barreira (ou cláusula de desempenho). Nas eleições de 2022, nem o PTB nem o Patriota conseguiram eleger representantes suficientes para atingir os critérios exigidos pela legislação eleitoral, o que os deixaria sem acesso aos recursos do Fundo Partidário e sem tempo gratuito de propaganda em rádio e televisão.
Com a fusão, a nova sigla passou a ter direito a esses recursos ao somar os votos válidos obtidos pelas duas legendas no pleito anterior.
Logo após sua fundação, o PRD tornou-se o terceiro maior partido do Brasil em número de filiados, somando cerca de 1,3 milhão de pessoas e superando legendas tradicionais como o PSDB.
No Ceará, a legenda foi inicialmente comandada pelo vereador Michel Lins, que a povoou com dissidentes do Cidadania, sua casa anterior. Defendendo um “espaço para sociais-democratas, verdes, liberais e conservadores”, ele estruturou mais de 50 diretórios apenas em 2023.
Devido a esse esforço, além dos prefeitos e vice-prefeitos eleitos, conseguiu emplacar 61 vereadores pelo Estado. Para 2026, o objetivo era eleger ao menos um deputado federal – apostando nele mesmo e no colega Vaidon Oliveira, ex-deputado e presidente do SD Ceará, a quem o PRD é federado – e de dois a três deputados estaduais.
Os planos foram interrompidos, contudo. Lins se desfiliou do PRD na última semana, abrindo o caminho para aliados de Mano e Gonçalves, e se registrou no Republicanos. No novo partido, será vice-presidente estadual.
“Saio com o coração feliz e com a convicção de que entreguei o meu melhor. […] Continuarei firme nos valores em que acredito: a boa política se faz construindo e fortalecendo grupo”, disse, em despedida.
Sob nova direção
Agregada novamente ao PRD, Giordanna Mano assumiu, na terça-feira (10), a presidência estadual da Federação Renovação Solidária, formada com o Solidariedade. A informação consta no Sistema de Gerenciamento de Informações Partidárias, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ela é pré-candidata à deputada federal, fazendo campanha em “dobradinha” com o esposo, que deve ser lançado ao Senado com apoio de Cid Gomes (PSB).
No comando do partido em si, deve ficar a vereadora de Fortaleza, Carla Ibiapina, esposa do prefeito de Aquiraz, Bruno Gonçalves (PSB), e filho de Acilon. A mudança foi confirmada pela chefia de gabinete da parlamentar, que informou que “tudo indica” que esse deve ser o desfecho.
A movimentação ainda não foi concretizada. Atualmente, o órgão provisório do PRD no Ceará encontra-se desativado, com o fim da vigência nessa terça-feira. Filiada ao Democracia Cristã (DC), ela tem até 3 de abril para fazer a migração.
As novas dirigentes – que ainda não conversaram com o PontoPoder sobre as movimentações – devem consolidar a posição governista do PRD nas eleições deste ano, caminho iniciado sob a gestão de Michel Lins.
Asa Branca News via DN





