CEARÁ – Cobra e calango que só existem no Ceará são incluídos em lista nacional de espécies ameaçadas


Risco de desaparecimento dos bichos já era reconhecido pelas autoridades estaduais.

calango-de-limaverde (Placosoma limaverdorum) e a serpente coral-de-lema (Apostolepis thalesdelemai), encontrados somente em áreas restritas de serras úmidas do Ceará, entraram na Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, atualizada neste mês pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O risco de desaparecimento do réptil e da serpente já era reconhecido pelo Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará, relação estadual produzida pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema).

desaparecimento de uma espécie, ainda mais uma endêmica, impacta diretamente o equilíbrio entre a fauna e a flora da biodiversidade local, como explica ao Diário do Nordeste o professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e coordenador da Lista Vermelha do Ceará, Hugo Fernandes.

Perder uma espécie para a extinção não significa dizer somente perder uma espécie; também significa perder todos os serviços que essa espécie presta ao meio ambiente. […] E, no caso de uma espécie endêmica, isso ainda é pior, porque não há outra oportunidade de preservar aquela espécie e aqueles serviços específicos que aquela espécie presta, porque ela é única, exclusiva daquele local.”
Hugo Fernandes

Coordenador da Lista Vermelha do Ceará

 

Na prática, um animal ser inserido em uma relação como a lista cearense ou a federal garante a captação de recursos financeiros e acesso a políticas públicas de preservação, como destaca o especialista.

“A inclusão na lista federal é muito importante, pois promove a possibilidade de instalação de políticas públicas também nesse aspecto federal. Isso permite com que recursos sejam destinados a essas espécies e que projetos de conservação, ONGs e inclusive empresas possam captar e direcionar recursos para essas espécies ameaçadas.”

A arrecadação de recursos é um fator importante para a conservação de espécies ameaçadas, já que viabiliza iniciativas como a realizada no Parque Nacional de Ubajara, que recuperou o nascimento do periquito-cara-suja na Serra da Ibiapaba após mais de 100 anos.

 

Quando eu capto recurso, vou garantir proteção de habitat, a possibilidade, se necessário, de estratégias de reprodução em cativeiro — não só de reprodução, mas de reprodução e manejo em cativeiro para posterior soltura na natureza — e também pesquisas científicas para responder perguntas necessárias, não só para diagnosticar as ameaças, mas sobretudo para resolvê-las.”
Hugo Fernandes

Coordenador da Lista Vermelha do Ceará

 

O registro nacional não só amplia as oportunidades de obtenção de fundos, mas também aumenta as chances do calango-de-limaverde e da serpente coral-de-lema serem classificados como ameaçados pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, elaborada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

“O fato delas serem endêmicas, ou seja, exclusivas do Ceará, ameaçadas no Estado, ameaçadas agora nacionalmente, certamente vai fazer com que, na próxima avaliação internacional, elas também sejam incluídas, aumentando ainda mais, não só a relevância e a necessidade de proteção, mas também a possibilidade de aquisição de recurso”, destaca Hugo.

Os animais integram o grupo das 180 espécies ou subespécies adicionadas à nova edição da Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, publicada em 17 de junho no Diário Oficial da União (DOU).

Além das inclusões, a relação federal mudou a categoria de duas espécies endêmicas do Ceará, que já estavam na lista nacional: o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) e a cobra-da-terra (Atractus ronnie), reclassificadas respectivamente como Em Perigo (EN) e Vulnerável (VU).

As novas avaliações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) ainda retiraram 150 espécies da lista, que agora tem, ao todo, 790.

Por que as duas espécies são consideradas ameaçadas

O calango-de-limaverde é um pequeno lagarto de corpo achatado e cabeça comprida, encontrado somente nas serras de Baturité, de Maranguape e da Aratanha. Nesses locais, que serão futuramente reconhecidos como montanhas, ele habita regiões úmidas restritas, cuja soma totaliza cerca de 140 km² de área.

 

Localizada na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), abrangendo Maranguape, Pacatuba e Guaiúba, a Serra da Aratanha ganhou proteção por meio de um decreto estadual de 1998.

Legenda: Localizada na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), abrangendo Maranguape, Pacatuba e Guaiúba, a Serra da Aratanha ganhou proteção por meio de um decreto estadual de 1998.
Foto: Divulgação/Sema.

 

A serpente coral-de-lema também está limitada a esses “brejos de altitude”, que, segundo Hugo, são remanescentes de Mata Atlântica. No entanto, ela está distribuída no Maciço de Baturité e nas serras de Ibiapaba e de Maranguape, em áreas que totalizam aproximadamente 576 km².

Devido à endemia restrita, ambas as espécies são facilmente ameaçadas por fatores ambientais, climáticos e humanos, além de doenças. “Isso é muito pouco. A gente está falando de um nível de restrição geográfica que promove uma maior possibilidade de eventos de extinção”, explica Hugo.

 

São áreas em que facilmente tenho a possibilidade de um evento, como, por exemplo, um incêndio ou um fungo, uma bactéria, um vírus, que porventura chegue nesse local e dizime essa população, e a gente perde essa espécie para sempre.”
Hugo Fernandes

Coordenador da Lista Vermelha do Ceará

 

O professor ressalta que a ocupação humana e a agricultura têm contribuído para o desmatamento dessas localidades, o que representa um fator de risco significativo. Embora não seja peçonhenta, a coral-de-lema também está sujeita a ser morta por humanos, apenas por ser uma cobra.

Outra ameaça listada pelo especialista são as espécies invasoras, como gatos e cachorros, que podem ser predadores não naturais desses animais.

Avaliação de risco nacional difere da estadual

Na atualização, o ICMBio classificou o calango-de-limaverde como Em Perigo (EN), mantendo a mesma indicação da Sema. Por outro lado, a coral-de-lema foi categorizada como Vulnerável (VU), divergindo da análise estadual, que a considerou Em Perigo (EN).

Coordenador de avaliação de répteis do Ceará para a nova lista nacional, o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Núcleo Regional de Ofiologia (NUROF) da instituição, Robson Ávila, explica o porquê da disparidade ao Diário do Nordeste.

 

Os fatores que geram discrepâncias entre as listas estadual e nacional são novos e/ou melhores dados, avaliação por diferentes pesquisadores e validação por diferentes pesquisadores. No caso de A. thalesdelemai [coral-de-lema], hoje sabemos que sua distribuição é um pouco maior, o que não significa, necessariamente, menor grau de ameaça.”
Robson Ávila

Professor da UFC

 

 

Listas de espécies ameaçadas, como a brasileira e a cearense, classificam os animais por grau de risco de extinção. Geralmente, elas adotam um padrão semelhante ao usado pela IUCN. Na atualização, o MMA considerou cinco das nove adotadas pela instituição internacional:

  • Vulneráveis (VU);
  • Em Perigo (EN);
  • Criticamente em Perigo (CR);
  • Possivelmente Extintas (CR-PE);
  • Extinta na Natureza (EW).

Além dessas, o Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará utiliza mais outras sete: Extinta (EX); Regionalmente Extinta (RE); Quase Ameaçada (NT); Menos Preocupante (LC); Dados Insuficientes (DD); Não Aplicável (NA); Não Avaliada (NE).

Conheça o calango-de-limaverde e a coral-de-lema

De coloração acinzentada, o lagarto tem uma faixa branca, que se estende da cabeça à cauda, e manchas claras ao redor do corpo. Em relação ao comportamento, Hugo detalha que ele é majoritariamente diurno e tem preferência por se locomover sobre a serrapilheira — camada de matéria orgânica que cobre o solo de florestas.

 

Réptil é encontrado serras de Baturité, de Maranguape e da Aratanha.

Legenda: Réptil é encontrado serras de Baturité, de Maranguape e da Aratanha.
Foto: Igor Joventino.

 

“A gente conhece muito pouco da ecologia alimentar [dele], mas assume que come inseto. Se tiver um pequeno vertebrado também, como sapos, por exemplo, é capaz dele comer também”, acrescenta o professor da Uece.

Já a coral-de-lema é uma espécie de serpente pequena, que atinge no máximo cerca de 70 centímetros de comprimento. De coloração avermelhada, ela possui listas marrons, que se estendem do pescoço à ponta da cauda, e ventre amarelado.

 

Mesmo inofensiva, espécie de serpente é ameaçada pelo abate humano indiscriminado.

Legenda: Mesmo inofensiva, espécie de serpente é ameaçada pelo abate humano indiscriminado.
Foto: Juliano Moreira.

 

A cobra não é peçonhenta, logo é inofensiva aos humanos. Sobre os hábitos alimentares dela, o especialista explica que o animal consome principalmente pequenos vertebrados. Predominantemente diurna, durante a noite ela costuma se esconder no solo ou em tocas.

 

 

Asa Branca News via DN


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