convive com as consequências das agressões que sofreu. Segundo ela, as lesões mais recentes atingiram principalmente a cabeça e o rosto. Mas os episódios de violência não começaram naquele dia.
“Com certeza, ele falava que ia me matar”, afirma. O homem acusado por ela é o empresário do setor financeiro Ivo Vel Kos, de 48 anos, com quem se casou dois anos antes dos fatos denunciados.
Segundo a dentista, a agressão mais recente começou depois de um jantar com amigos. Durante o encontro, ela afirma que o marido já demonstrava irritação e passou a repreendê-la na frente de outras pessoas.
Ao entrar no carro para voltar para casa, a situação se agravou. “E aí ele já explodiu”, relata.
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O empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos, e a cirurgiã-dentista Giullia Falcão Kos, de 27 anos. — Foto: Reprodução/Redes Sociais
De acordo com a vítima, o empresário passou a agredi-la enquanto dirigia. “E aí ele começou a me dar socos ainda dirigindo.”
Segundo Giullia, o homem também usou um taser para ameaçá-la. O equipamento é uma arma de choque elétrico capaz de imobilizar temporariamente uma pessoa.
A dentista afirma que conseguiu sair do carro e tentou pedir ajuda. “E aí eu liguei pra polícia, deu errado e eu desci do carro e vi que tinham dois seguranças na rua.”
Imagens de câmeras de segurança mostram a vítima sentada na calçada, encolhida, enquanto o empresário se aproxima. Segundo Giullia, um segurança acompanhou toda a situação. “Eu olhava pra ele, pedia ajuda e ele não se movia.”
Ela afirma que acabou sendo levada de volta para dentro da casa contra a própria vontade. Dentro da residência, segundo o relato da dentista, as agressões continuaram. “Quando a gente entra na sala, o taco de beisebol tá lá e é onde ele pega e começa a correr atrás de mim.”
Ao tentar se proteger, ela foi atingida na mão. Giullia conseguiu se trancar em um banheiro, mas acreditou que não sobreviveria.
“E eu falei, eu vou morrer aqui”.
Momentos depois, aproveitou uma distração do homem para fugir. Vizinhos a acolheram e acionaram a polícia. Os pais chegaram logo em seguida.
“Não reconhecia que era minha filha”, afirmou o pai ao descrever o estado em que encontrou a jovem.
‘Isso só foi crescendo’
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Dentista relata anos de agressões do marido, empresário da Faria Lima, e diz ter vivido ciclo de violência — Foto: Reprodução/TV Globo
Mas a violência, segundo a dentista, já fazia parte da rotina do relacionamento. Ela conta que sofreu a primeira agressão física uma semana antes do casamento.
“Ele me deu um tapa no rosto.” Na época, registrou boletim de ocorrência. Mesmo assim, decidiu seguir com o casamento. “Eu acreditava que era um episódio isolado e que isso nunca mais iria acontecer.”
Segundo o relato de Giullia, as agressões continuaram em viagens e em diferentes momentos da relação.
“Eu confesso que eu cheguei a ficar até acostumada [com as agressões]”.
A dentista também denunciou episódios de violência sexual durante o casamento. “E aí também teve os casos de estupro.”
Segundo ela, era obrigada a manter relações contra a própria vontade. “Eu acordava com ele em cima de mim e essa violência sexual acontecia sempre”.
Além das agressões físicas e sexuais, Giullia afirma que sofreu violência psicológica. “Sempre foi uma das maiores, por mais que eu apanhasse bastante, a violência psicológica era maior.”
Ela diz que abandonou a profissão durante o relacionamento. “Ele me fez parar de trabalhar.” Também relata que era alvo constante de humilhações. “Você é uma inútil. Não seja burra, fica quieta, obedece que você só tem a ganhar”.
O ciclo da violência
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Ivo Vel Kos, de 48 anos, que agrediu Giullia Falcão. — Foto: Reprodução/TV Globo
A história da dentista ajuda a explicar o chamado ciclo da violência doméstica. Especialistas afirmam que relacionamentos abusivos costumam seguir um padrão.
Primeiro, surgem comportamentos de controle, isolamento e humilhação. Depois, vêm as agressões. Em seguida, aparece a fase conhecida como “lua de mel”, quando o agressor pede desculpas, demonstra arrependimento e promete mudar.
Uma pesquisadora ouvida pelo Fantástico explica que a primeira fase é marcada por sinais de controle. “O problema é que quando se entra na segunda fase, que é a fase que a gente chama de explosão, é quando essa violência chega no seu auge.”
“E a terceira fase é a fase que a gente chama de lua de mel.”
Segundo Giullia, ela tentou romper a relação várias vezes. A vítima afirma que o então marido a procurava constantemente quando ela tentava se afastar. “Ele ligava 60 vezes, ele ia na minha casa, ele mandava flores, ele mandava presente, ele chorava”.
O Fantástico mostrou que apenas 10% das mulheres pedem ajuda na primeira semana após o início da violência. Quase metade demora entre um e dez anos para procurar apoio. E 18% levam mais de uma década para denunciar.
Especialistas alertam que, à medida que os episódios se tornam mais frequentes, o risco para a vítima aumenta. “O ciclo da violência vai se tornando cada vez mais recorrente e menos espaçado.”
Na audiência de custódia, a juíza responsável pelo caso destacou a gravidade das acusações. “Observo que os fatos são graves, há início de que a vítima tivesse sido agredida pelo indiciado de forma violenta, principalmente porque não é a primeira vez que as agressões ocorrem”.
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Empresário Ivo Vel Kos, acusado de agredir a namorada. — Foto: Reprodução/TV Globo




